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Opinião Segunda-feira, 15 de Março de 2021, 17:26 - A | A

Segunda-feira, 15 de Março de 2021, 17h:26 - A | A

CAIUBI KUHN

A importância das informações básicas e o desperdício de dinheiro com políticas as cegas

Caiubi Kuhn*

Qualquer país ou estado desenvolvido produz e disponibiliza informações sobre seu território para investidores, pesquisadores e gestores públicos. Dados sobre solo, geomorfologia, geologia, aquíferos, pluviometria, topografia, vegetação, entre muitos outros, são fundamentais para tomada de decisões sobre obras públicas, implementação de empreendimento e desenvolvimento de estudos com uma maior precisão. Mato Grosso, embora seja destaque nacional há várias décadas em relação ao crescimento, e que hoje possua um dos maiores PIB per capita do país, ainda é carente de informações sobre seu território. E este é um assunto que o Governo Estadual, a Assembleia Legislativa e a sociedade precisam olhar com mais atenção.

Os estados de Minas Gerais e São Paulo, são dois exemplos, onde informações sobre o território são facilmente encontradas em uma escala de detalhe muito boa. Imagine uma foto convencional com 200 pessoas, onde nesta foto você leitor, precise identificar as pessoas que estão usando relógio. Será difícil não é mesmo? Mas imagine agora que as 200 pessoas foram divididas em grupos de 10 pessoas, e que você tenha 20 fotos diferentes para tentar identificar as pessoas que usam relógio. Claro que ficará muito mais fácil.

Os mapas temáticos e as informações estatísticas são analisadas da mesma forma. Mapas com pouca precisão, como o caso da foto com 200 pessoas, tornam o território menos atrativo para investidores, fica mais difícil fazer a gestão pública do local e ter informações precisas para tomada de decisão relacionadas à investimentos ou ações estratégicas.

Mato Grosso precisa caminhar na direção do fortalecimento das informações técnicas, dos mapas temáticos básicos e da gestão territorial baseada em critérios científicos e estatísticos. Mas para isso, o governo precisa colocar como ação prioritária a estruturação de órgãos que cotem essas informações, ou mesmo a criação de institutos para desenvolvimento de pesquisa, seguindo os moldes por exemplo, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) que existe no estado de São Paulo. Outra linha fundamental, é articular com o Governo Federal para que sejam criadas ou fortalecidas unidades de pesquisas dentro do Estado.

Os debates sobre as alternativas de desenvolvimento do estado, o ordenamento territorial, ou mesmo políticas de fomento setoriais, precisam considerar as características climáticas, do meio físico e sociais. Caso isso não for feito, além de o estado correr o risco de desperdiçar o dinheiro do contribuinte, ainda podemos ver em um futuro breve prejuízos ambientais e sociais, que podem afetar as futuras gerações.

Algumas pessoas dizem que investir em informação básica é perder dinheiro. Mas quem diz isso é um tolo. Uma obra mal desenvolvida por falta de informações, um desastre natural que ocorra por falta ação pública, que tenha seus danos maximizados por falta de planejamento governamental, podem custar muito a toda sociedade. Porém o mesmo negacionismo científico que estamos observando em relação a pandemia, também existe em parte das sociedades e dos gestores públicos, em relação a necessidade e importância das informações estatísticas e das cartografias temáticas básicas.

Hoje graças aos avanços tecnológicos, é possível produzir informações detalhadas do território com muito mais facilidade e com menos recursos. Imagens fornecidas por satélites proporcionam o acompanhamento periódico de informações. E a utilização de análises espectrais podem auxiliar na construção de mapas temáticos em diversas áreas. Mas precisamos que o governo estadual, gestores municipais, empresários, pesquisadores e a população, vejam isso como uma medida necessária.

Mato Grosso é um estado que é referência no Brasil em produtividade e crescimento, precisamos também ser referência em informação e gestão. E isso passa por realizar essa mudança estratégica, entendendo a ciência e as informações científicas como ferramentas fundamentais para o desenvolvimento econômico e social. O estado e os municípios, precisam realizar o planejamento com o máximo de subsídios possível. Não podemos mais aceitar a construção de políticas as cegas, ou o debate raso sobre fomento ao desenvolvimento sem compromisso com os impactos de cada mudança no meio ambiente.

CAIUBI KUHN é geólogo, especialista em Gestão Pública e mestre em Geociências pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT); Docente da Faculdade de Engenharia UFMT-VG

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