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Opinião Sexta-feira, 16 de Abril de 2021, 19:45 - A | A

Sexta-feira, 16 de Abril de 2021, 19h:45 - A | A

LUANA SOUTOS

Gratidão e ingratidão

Luana Soutos*

Essa semana a minha mãe recebeu, finalmente, a primeira dose da vacina contra a covid-19. Certamente o momento mais esperado pela população mundial há mais de um ano. Foi um momento de alegria e um pouco de alívio, relembrando que sempre há esperança para o nosso desespero coletivo. Aliás, no caso da vacinação, mais de uma esperança. Estavam ali na nossa frente representantes da Ciência e do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro.

Minha mãe levou cartazes para comemorar e, ao mesmo tempo, protestar, no momento da vacinação. Eram três folhas que estampavam “Viva a Ciência!”, “Viva o SUS!” e “Fora Bolsonaro genocida!”. Uma amiga da minha mãe, muito querida por sinal, não gostou do que viu nas fotos, e considerou uma manifestação de ingratidão, porque, para ela, quem comprou a vacina foi o presidente.

Infelizmente parte da população brasileira ainda pensa assim, apesar de todos os fatos demonstrando o contrário. Mas, pela voz do povo – já que as linguagens científica e jornalística andam um pouco em baixa -, a verdade é dura, a verdade dói. E a verdade é sempre muito disputada, ainda mais nesse momento de maior polarização de ideias.

Infelizmente Bolsonaro ocupa o cargo que ocupa e, por causa dele, nós vacinamos bem menos do que poderíamos ter vacinado. Foi ele mesmo que disse aos jornais que não autorizaria a compra de vacinas, muito menos da chinesa – a vacina mais aplicada no país atualmente. Ninguém inventou, ele mesmo disse, com todas as palavras, para quem quisesse ouvir.

Esse depoimento, por si só, demonstra que o governo federal adquiriu as vacinas porque foi obrigado, e não pela disposição do presidente. E comprou com dinheiro público, que é meu e seu. Ou seja, comprou com o dinheiro de quem demanda o serviço. O papel de Bolsonaro nesse processo poderia ter sido indiferente, porque ele não é um tirano, como gostaria. Há outros poderes e instituições dentro do Estado, além da vontade popular, que dizem a ele o que fazer ou não. Não é ele quem decide. Acontece que todo o esforço desse piloto é para derrubar o avião. Assim, em vez de ajudar ou se manter indiferente, Bolsonaro atrapalha o processo sempre que pode.  

Felizmente, como nos cartazes que minha mãe levou ao local da vacina, nós temos a Ciência e o SUS. A esses, que trabalham comprovadamente em benefício da população, nós devemos ser gratos. Em compensação, o mesmo presidente que atrapalha nosso único acesso de esperança, é também quem auxilia o desmonte do SUS e da Ciência. A PEC 186/19, por exemplo, congelou por 15 anos os salários de profissionais da Saúde e Educação. Assim, não da para defender o algoz e a vítima ao mesmo tempo.

Mas a maioria dos seguidores do presidente, aqueles que ainda acreditam que ele é uma pessoa bem intencionada, também acreditam que servidor ganha muito e trabalha pouco, que direitos são privilégios, e que o Estado está inchado – entre outras coisas sem sentido. E ainda reproduzem a frase “não discuto política porque não gosto”, justamente o que os fazem cair nessas armadilhas, reproduzindo bobagens.

Nós devemos discutir política, sim, e devemos ser gratos aos segmentos e pessoas certas: pesquisadores que dedicaram suas vidas aos estudos e, no momento de desespero, souberam responder com agilidade e qualidade; aos profissionais da saúde, que atendem a população arriscando a própria vida. Aos prefeitos, governadores e presidentes nós devemos cobrar, exigir, reclamar, e em casos como o do Brasil, em que o presidente atrapalha em vez de ajudar, devemos culpar, responsabilizar, e rejeitar.  

 

* Luana Soutos é jornalista e socióloga.      

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