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Opinião Terça-feira, 23 de Março de 2021, 15:02 - A | A

Terça-feira, 23 de Março de 2021, 15h:02 - A | A

LUANA SOUTOS

O cúmulo do absurdo

Luana Soutos*

É quase inacreditável o que estamos vivendo. Um filme de ficção científica misturado com terror. Um verdadeiro pesadelo. Uma tragédia! Parece absurdo que mil, duas mil, três mil pessoas morram diariamente por conta de uma “gripezinha”. Parece absurdo que o Brasil tenha retrocedido ao mapa da fome e pesquisas indiquem que 68% dos moradores de favelas não têm dinheiro sequer para comprar comida. É absurdo que milhares de pessoas estejam desempregadas e que o governo ofereça auxílio emergencial de no máximo R$ 375.  

Sim, a pobreza, a fome, o SUS precarizado, pessoas tendo que acionar a Justiça para conseguir leitos de UTI, tudo isso sempre fez parte do nosso cotidiano neoliberal, e sempre foi revoltante. Mas o que vemos agora, além de revoltante é desesperador.  

É absurdo que, diante de tudo isso, aspirantes a empresários continuem se sentindo no direito de repudiar as medidas de enfrentamento à pandemia. Nas ruas, do alto de suas caminhonetes, pedem que o comércio funcione como se nada estivesse acontecendo. É absurdo que neguem os dados explicitados pela ciência e pelos jornais, que ignorem o valor de cada vida, dos seus funcionários, clientes e até familiares.

 

São vários absurdos, mas apesar de todos eles, há outro que parece ainda maior: o chefe de Estado que nós temos. Num dos piores momentos da história, temos um presidente que faz chacota da realidade do seu povo. “E daí”, “sou Messias, mas não faço milagre”, “não sou coveiro”... se fosse, certamente estaria ajudando mais.   

 As piadas chocam, mas o mais grave mesmo é que o desdém reflete nas ações do presunçoso estadista. Cria todas as dificuldades para atrapalhar ao máximo a aquisição de vacinas. Diante da obrigação, compra as vacinas em número reduzido, e incita a população a não aderir à campanha. De forma absurdamente irresponsável, gera suspeitas sobre o uso de máscaras. Indica tratamentos de saúde que são sabidamente ineficientes. Sugere leis que retiram ainda mais recursos e estrutura da saúde pública e da assistência social. Mobiliza seu Jurídico para derrubar ações de combate à pandemia nos estados. Se isso tudo não significa articular um verdadeiro genocídio, ninguém sabe o que é!

Como se não bastasse, persegue seus críticos. Não se pode dizer que o presidente é genocida. Cientistas, jornalistas, lutadores sociais, youtubers, têm sido intimados a depor sobre críticas feitas à figura pública mais importante do país, enquadradas na Lei de Segurança Nacional, quando nesse momento quem põe em risco a segurança nacional é o próprio presidente. O cúmulo do absurdo!   

O cenário que temos agora não é fruto de desgoverno ou incompetência. É fruto de um projeto de destruição de país que está sendo bem executado. O Ministério da Saúde enviou máscaras inapropriadas para hospitais. É inacreditável! Vou repetir: a instituição de maior referência para a saúde pública de todo o país – que fez questão de evidenciar isso quando centralizou a compra e a distribuição de vacinas - enviou máscaras sem eficiência para hospitais de vários estados no meio de uma pandemia. Isso só pode ser a execução plena de um projeto de morte, genocida. Até porque não é um caso isolado, junto a isso o Ministério promove a falta de profissionais, de remédios, de estrutura, e o ministro tem por obrigação seguir a linha negacionista do presidente.

Em meio a todos esses absurdos, se pode existir algum milagre, ele deve se chamar organização e mobilização social. Para salvar vidas, a defesa desse milagre deve ser nossa prioridade, com o objetivo fortalecer o SUS, a ciência, e a liberdade de expressão, e enfraquecer os agentes do Estado genocida.     

 

*Luana Soutos é jornalista e socióloga.

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