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Brasil Sábado, 17 de Fevereiro de 2024, 16:20 - A | A

Sábado, 17 de Fevereiro de 2024, 16h:20 - A | A

DESIGUALDADE SOCIAL

Entre os alunos mais pobres apenas 3% conhece o básico em matemática

g1

No Brasil, quantos alunos pobres, de 15 anos, conseguem resolver problemas simples de matemática, com frações, porcentagem e números decimais? Entre aqueles de menor renda que participaram da mais recente edição do Pisa (sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), em 2022, apenas 3% demonstraram ter esse conhecimento básico.
Já no grupo dos mais ricos, a taxa é bem mais alta, apesar de também ser insatisfatória: 33%.

É o que indica uma análise exclusiva obtida pelo g1, formulada pelo centro de pesquisas Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), a partir de microdados dos resultados da principal avaliação de aprendizado do mundo.

Os números gerais do Pisa, divulgados em dezembro de 2023 pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), ainda não consideravam os aspectos de renda, mas já mostravam que 7 em cada 10 alunos brasileiros não sabiam converter moedas ou comparar distâncias.

Desigualdade: abismo também existe em ciências e leitura

Para analisar o desempenho do país no Pisa, o Iede separou os 10.798 brasileiros que fizeram a prova em três grupos, de acordo com a renda, e comparou as notas dos dois extremos: da "fatia" dos 33% mais ricos com a "fatia" dos 33% mais pobres. 

“Não dá para dizer que as escolas mais ricas estejam tendo resultados excepcionais. Mas esses dados mostram que o nível socioeconômico continua muito determinante para a aprendizagem dos alunos no país. A educação deveria ser justamente uma ferramenta para diminuir essa desigualdade”, afirma Ivan Gontijo, gerente de políticas educacionais da ONG Todos Pela Educação.

Entre as cinco regiões, também há diferenças acentuadas:

No Norte, por exemplo, apenas 1,5% dos mais pobres atingiram o patamar adequado em matemática. No Nordeste, 2,5%. Já no Sul, 31,2%.

Entre os mais ricos do país, cerca de metade consegue desempenhar as principais tarefas em leitura. Mesmo nesse grupo mais favorecido economicamente, considerando só a região Norte, o índice cai para 36,1%.

E em ciências, levando em conta todos os perfis socioeconômicos, 52,1% chegaram ao nível 3 do Pisa na região Sudeste. No Norte, foram 30,2%.

“Há casos que estão avançando, como no Ceará e em Alagoas, mas são poucos exemplos. É preciso pensar em uma melhor distribuição de recursos para as regiões Norte e Nordeste”, explica Ernesto Faria, diretor-executivo do Iede. “O ensino de qualidade não pode depender do CEP de onde a pessoa nasceu.” 

Émerson de Pietri, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), lembra que as desigualdades existem também dentro do mesmo município e da mesma rede (pública e particular). “Há condições muito insatisfatórias até em escolas particulares de cidades pobres. É fundamental pensar nessa heterogeneidade”, diz.

Atenção: a desigualdade de aprendizado não é observada só no Brasil. Países desenvolvidos, como os Estados Unidos, apresentam abismos ainda maiores entre o desempenho de pobres e de ricos na escola.

A diferença é que, no caso brasileiro, as médias são muito insatisfatórias, mesmo entre as classes favorecidas economicamente.

“No mundo, em poucos casos, essa diferença social diminuiu [nos últimos anos]. Isso significa que algo está falhando nos sistemas educativos”, afirma Tiago Caliço, analista da OCDE.

CAUSAS: Por que o nosso desempenho é tão ruim? E por que a desigualdade é tão alta?

Em primeiro lugar, é preciso fazer uma ressalva. Quando os primeiros dados do Pisa 2022 foram divulgados, em dezembro do ano passado, ficou claro que o Brasil estava estagnado – as notas variaram pouquíssimo em dez anos. Nem mesmo a pandemia provocou mudanças no desempenho. Levantou-se, então, uma hipótese: será que o nível de qualidade das escolas é tão baixo que tanto faz se elas estiverem abertas ou fechadas (como no período da Covid)?

Caliço, da OCDE, descarta essa ideia. Ele explica que a estagnação pode estar relacionada a outro fator: uma maior participação de alunos vulneráveis no Pisa. Em 2003, quase metade (45%) dos estudantes não era representada na prova. Em 2022, a porcentagem de excluídos caiu para 24%.

“Nós sabemos que as populações menos favorecidas vão ter desempenhos mais fracos, e elas passaram a ser mais representadas no Pisa. Se as notas ficaram estagnadas mesmo assim, está implícito aí que houve algum ‘sucesso’ educativo”, afirma Caliço.

A seguir, veja um resumo das principais dificuldades encontradas pelo Brasil para melhorar a média geral no Pisa:

BAIXA ATRATIVIDADE: A carreira de professor não é atrativa no país, em geral, pela baixa remuneração e pelas condições de trabalho. Nos cursos de licenciatura em matemática, então, a procura por vagas é baixíssima, e a evasão é alta. Quando um aluno tem bom desempenho em cálculo, acaba migrando para carreiras com melhores perspectivas de mercado de trabalho, como economia, engenharia e ciências da computação.

“Existe um gargalo de formação. Os professores [que se formam] em matemática não costumam ter uma bagagem tão robusta, porque não puderam desenvolver essas habilidades quando eram alunos”, afirma Ernesto.

E mais: com os baixos salários, o mesmo professor precisa dar aula em mais de uma escola. O ideal seria que ele ganhasse o suficiente para poder se dedicar integralmente somente a um colégio.

QUALIDADE RUIM EM FACULDADES: Émerson, da USP, explica que o crescimento desenfreado do ensino à distância (EAD) foi um retrocesso na educação: está rebaixando o nível de formação de professores. Em geral, são graduações formuladas a baixo custo, com aulas gravadas e reproduzidas para um número ilimitado de alunos.

DESEQUILÍBRIO NA DISTRIBUIÇÃO DE PROFESSORES: Forma-se um ciclo. Os estudantes aprovados nas faculdades privadas entram, em geral, com uma defasagem nos conhecimentos básicos, provavelmente pela baixa qualidade do ensino médio público. Têm acesso a um curso superior fraco. Após a formatura, enfrentam maior dificuldade para passar nos concursos públicos mais concorridos. São contratados como professores temporários, em escolas de pior estrutura. Ensinam alunos que já são mais socialmente vulneráveis e que, por tabela, continuarão recebendo uma formação escolar pior que a dos mais ricos.

Ivan, do Todos Pela Educação, acrescenta mais um detalhe: no sistema de concursos públicos, os professores efetivos com mais experiência adquirem o direito de escolher a região onde trabalharão. Por buscarem melhores condições de infraestrutura, transporte e segurança, por exemplo, acabam optando, em geral, por escolas mais centrais, que já têm melhores desempenhos.

“No bairro vulnerável, fica o docente temporário [e menos experiente], que dá aula em três colégios diferentes”, diz o especialista.

PASTEURIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO: Neide Noffs, professora de pós-graduação em educação na PUC-SP, diz que é preciso pensar em estratégias de ensino-aprendizagem voltadas para a realidade de determinada escola ou região. “Não faz sentido padronizar os alunos, se os recursos não são padronizados. Precisamos respeitar o contexto das crianças e propor situações para que elas aprendam dentro da realidade delas”, diz.

DESIGUALDADE ECONÔMICA: Entram aqui nos três aspectos, explica Emerson de Pietri. Veja abaixo:

O processo de educação formal no Brasil é recente. “A escolarização básica, no sistema público, passou a ser acessível para a maior parte da população após a década de 1970, gradualmente. Foi só na década de 1990 que a maioria chegou ao ensino fundamental 2”, diz. “A cultura escrita é muito mais recente aqui do que em outros países.” Ou seja: partimos de um ponto diferente da média da OCDE.

Por quase 400 anos, o Brasil viveu um sistema escravocrata, “que deixou uma estrutura social difícil de ser superada”. “No cotidiano escolar, recebemos alunos que vêm de situações socioeconômicas muito difíceis. São crianças que precisam se preocupar antes com a sobrevivência. Ela tem o que comer? O que vestir? Pode tomar banho? É um conjunto de fatores para que ela tenha condições de aprender”, explica o professor.

A escolarização dos adultos que convivem com o aluno também influencia na facilidade de aprendizagem. “Se as crianças não têm como comprar livros ou se vivem em um grupo social no qual a escrita não faz parte do cotidiano, elas provavelmente terão menos facilidade do que as demais [na alfabetização]”, diz o professor.

CONSEQUÊNCIAS: O que acontece a partir do desempenho fraco na educação?

As consequências vão além das dificuldades de se chegar ao ensino superior ou de ocupar funções reconhecidas no mercado de trabalho: 

O jovem tem suas possibilidades de escolha reduzidas. “Em geral, ele vai querer fazer um curso na área em que tenha menos dificuldade. Se ele tiver uma boa base [de conhecimentos], vai [ter um leque maior e] poder tomar uma decisão considerando o que realmente quer para sua vida”, afirma Ernesto, do Iede.

Ter uma formação ruim prejudica o exercício da cidadania: dificulta que o aluno controle seus gastos, calcule troco, faça contas simples, leia sobre seus direitos e entenda os princípios da democracia. A escola, além disso, ensina a tolerar os colegas, a dividir o espaço com um grupo e a lidar com a diversidade.

Bons conhecimentos em matemática, por exemplo, são importantes para a capacidade de resolver conflitos. “Você é o entregador de bolo e está com as duas mãos ocupadas, segurando a caixa. Como fazer para tocar a campainha? A escola deve propor esse tipo de desafio para que o aluno desenvolva o raciocínio lógico diante de situações cotidianas”, afirma Neide.

Um país com educação prejudicada sofre impactos na produtividade econômica e na formação de mão de obra qualificada.

Como melhorar?

Tiago, da OCDE, reforça que as análises do Pisa devem sempre levar em conta o desempenho do país por um período mais extenso. Não faz sentido, segundo ele, olhar apenas para duas edições do exame e tirar alguma conclusão sobre determinada política educacional.

E mais: rankings não são apropriados. Os países têm diferentes realidades econômicas e sociais, dimensões territoriais, organização política, tamanhos de população…
Tendo isso em mente, os especialistas entrevistados nesta reportagem apontam como estratégias de melhoria: 

fortalecer os esquemas de gestão da educação, em todos os níveis (desde o ministério até a coordenação de uma escola);
elaborar políticas públicas que não mudem a cada governo (o ideal é sejam adaptadas de acordo com os resultados que aparecerem);
valorizar a formação dos professores e melhorar as condições de trabalho deles;
olhar para exemplos de sucesso dentro do Brasil e tentar adaptá-los em outras regiões, respeitando os diferentes contextos;
proporcionar financiamento adequado às necessidades das redes de ensino.

“Equidade não é dar a mesma coisa para todos, e sim ver as necessidades de cada um e customizar o sistema”, diz Ivan Gontijo.

 
Cuiabá MT, 22 de Maio de 2024