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Polícia Quinta-feira, 20 de Outubro de 2022, 12:22 - A | A

Quinta-feira, 20 de Outubro de 2022, 12h:22 - A | A

COAÇÃO

Policial denuncia perseguição e assédio de superiores contra mulheres na PM

Uma policial militar procurou a Delegacia Especializada de Defesa da Mulher para denunciar o comandante e o subcomandante do batalhão em que trabalha, em Rondonópolis, por assédio moral, perseguição e coação. A denúncia foi oficializada na segunda-feira, 17 de outubro, e teve uma cópia encaminhada à Associação de Defesa e Garantia dos Direitos das Mulheres de Mato Grosso, pois a policial diz ter medo pela integridade física de sua família.

Um relatório detalhado sobre o caso, com 9 páginas, citando como alvos da denúncia o comandante do 5º Batalhão da PM em Rondonópolis, tenente-coronel Gleber Cândido Moreno, e o subcomandante, capitão Heryk Henryk de Deus Pereira.

 

Com 14 anos de serviços prestados à Polícia Militar, a policial alega que começou a sofrer o assédio moral em abril de 2020. À época, ela trabalhava na ronda escolar. Porém, as escolas, creches e berçários haviam sido fechados em decorrência da pandemia de covid-19 e seus superiores a colocaram em uma força-tarefa de fiscalização das medidas restritivas determinadas pelo governo estadual.

Teve início a via crucis da policial. Com duas filhas pequenas, ela pediu a seus superiores que alocassem seu turno no período da tarde, pois as creches estavam fechadas e não tinha com quem deixar as crianças. Porém, seu pedido foi ignorado e, segundo ela, “a perseguição só aumentou”, com mudanças constantes e repentinas nos horários e locais de serviço.

“Teve um dia que tive que levar minhas filhas comigo para o trabalho, porque não havia ninguém que pudesse cuidar delas. A Ten. Vanessa Marques me dispensou do serviço nesse dia, porque eu não tinha condições de trabalhar com duas crianças do lado. Depois disso, o Cap. De Deus me ‘perguntou se eu não tinha vizinho que pudesse cuidar delas’”, narra o documento.

A policial relata ainda que passou por novo assédio após ser submetida a uma cirurgia oftalmológica. Ela conta que o médico diagnosticou um ‘afinamento da córnea’, intercorrência rara após esse tipo de cirurgia, e pediu a ampliação de seu afastamento. Contudo, seu superior teria agido com desconfiança, mesmo diante do atestado médico.

No ano seguinte, a policial foi transferida para a patrulha rural, mas seus horários continuavam sofrendo as mesmas mudanças constantes e repentinas. Após reclamar novamente da falta de rotina, ela foi transferida para a Cia Operária. Ali, ela narra ter sido submetida à nova situação vexatória. Ela conta que, em novembro de 2021, todos os policiais da Cia Operária foram homenageados pela Câmara de Vereadores, incluindo um policial que estava em serviço há uma semana, mas seu nome foi retirado da lista “para me humilhar diante dos colegas de trabalho”.

Ela conta ainda que sofreu assédio durante a realização do Teste de Aptidão Física (TAF) para conseguir a promoção para o posto de terceiro sargento. Além disso, seus superiores teriam negado diárias de viagem que precisou fazer a serviço em Cuiabá e voltaram a mudar com frequência seus horários e locais de atuação.

Inconformada com a situação, ela foi procurar novamente o capitão De Deus para pedir uma estabilidade em seu trabalho. “Ele respondeu que não fez filho comigo e meus problemas pessoais eu que resolvesse”. Revoltada, ela pediu permissão para sair, se dirigiu à caixa de areia e descarregou seu revólver ali. Acabou recebendo voz de prisão ali mesmo, mas precisou ser encaminhada ao hospital pois estava com pressão alta devido à questão emocional.

A Promotoria de Justiça ofereceu um acordo para que ela não fosse processada, já que seu registro profissional não continha qualquer anotação de conduta reprovável, apenas elogios à sua atuação. Porém, o ato acabou custando sua promoção para o cargo de terceiro sargento, além de ser usado frequentemente no batalhão como motivo de chacota.

Após o episódio, ela procurou um psiquiatra, que diagnosticou Síndrome de Burnout, uma doença psicológica causada pelo esgotamento emocional e físico no trabalho. Mesmo diagnóstico foi dado pelo Instituto Médico Legal (IML).

Ao final, a policial conta que deu parte de seus superiores para o supervisor deles, coronel Fernando Agostinho, o que teria encorajado outras policiais mulheres a também denunciarem situações de assédio. Ela alega que, depois disso, passou a ser perseguida em locais públicos por um carro branco com dois homens. Além disso, tem recebido informações sobre coação à tropa, para evitar novas denúncias. Relata ainda que duas de suas colegas, policiais militares femininas, tentaram suicídio devido à pressão que vêm sofrendo.

“Então, eu peço ajuda das autoridades e todos que puderem ajudar de alguma maneira a mim e minhas colegas, porque ninguém vai querer denunciar um Ten Cel que ainda se mantém como comandante de batalhão. Sendo que nenhuma delas está em condições psíquicas mínimas necessárias para fazer qualquer tipo de denúncia devido à complexidade que estão passando, ainda mais se tratando de uma decisão que é totalmente pessoal. Minhas amigas precisam ficar bem. Todas nós tememos retaliação e ainda mais perseguição”, conclui o documento.

 
 
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